domingo, 13 de novembro de 2016

Michel Houellebecq em entrevista para a Época sobre Trump, Le Pen e islamismo

Por Época,

Nascido na Ilha da Reunião, em 1956, Michel Houellebecq tornou-se conhecido em 1994 com um pequeno romance chamado Extensão do domínio da luta. Nele, a sexualidade é tratada como um “sistema de hierarquia social”. Em 1998, alcançou o sucesso mundial comPartículas elementares. Poeta, ator, cineasta, compositor, romancista e fotógrafo, Houellebecq é um falso tímido. Fala pouco, baixo e lentamente, mas cada frase tende a ser uma bomba. Em 2001, lançou Plataforma, história que termina com um atentado terrorista. Em 2010, venceu o Prêmio Goncourt, considerado o Nobel da literatura francesa, com O mapa e o território. Foi processado por ter classificado o islamismo como “a religião mais idiota de todas”. Em 2015, estava na capa do Charlie Hebdo quando o jornal satírico francês sofreu um atentado praticado por terroristas islâmicos. Era o dia da sessão de autógrafos – que precisou ser cancelada – de Submissão, romance no qual Houellebecq imagina um muçulmano na Presidência da França. Traduzido em mais de 50 países, ele ocupa o lugar de mais famoso e polêmico escritor francês atual. Em 2016, dominou o Palais Tokyo, em Paris, com uma exposição fotográfica louvada pela crítica. Na semana passada, fez uma conferência no ciclo Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre, onde criticou intelectuais franceses famosos como Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Jacques Lacan e Michel Foucault – para ele, obscuros, vazios e incompreensíveis. Nesta entrevista a ÉPOCA, Houellebecq fala sobre literatura, política, religião, sexo, intelectualidade e, claro, de Donald Trump. Ateu, Houellebecq persevera num paradoxo: sem Deus, a humanidade não tem salvação.


ÉPOCA – Como viu o duelo entre Donald Trump e Hillary Clinton e a vitória do republicano? 

Michel Houellebecq Vi como algo enfadonho. Resolvi assistir a um dos debates. Cansei logo. No começo, os golpes baixos, as provocações, os blefes e as alfinetadas de todos os tipos até parecem interessantes. Depois, isso cansa e dá para ver o vazio do espetáculo. Não consegui localizar as ideias, os grandes planos, as propostas diferentes. Achei muita aparência para pouco conteúdo. É claro que cada lado exagera os perigos do outro. A estratégia de atemorizar os eleitores nunca é descartada. Não existe na França um equivalente a Donald Trump. No passado não muito distante, tivemos Bernard Tapie [empresário que foi presidente de clube de futebol e político],que era fanfarrão, exagerava sua fortuna e vivia envolvido em escândalos. Passou. Tapie era desprezado pelos verdadeiros empresários e as ideias dele não eram muito precisas. Tudo nele remete a Trump. É um erro associar Trump a Marine Le Pen [política francesa de extrema-direita]. São diferentes. Não sei o que vai resultar dessa eleição. Por um lado, se Trump, como ele disse, deixar de lado a Otan e investir menos em guerras, será ótimo. Perigoso era George Bush, que provocou uma tragédia no Iraque. Barack Obama já foi mais parcimonioso. Trump será perigoso se retomar o comportamento tradicionalmente belicista dos republicanos. Se não fizer isso, poderá não se sair mal.


ÉPOCA – A política o fascina tanto quanto a literatura?

Houellebecq – A política pode ser matéria da literatura. Eu a usei em Submissão. Meu interesse por ela, no entanto, é bastante variável. Há épocas em que acompanho muito o noticiário político pela televisão. Não sou muito de me dedicar aos jornais. Na França, os jornais estão sendo abandonados pelos leitores. Em outros momentos, porém, deixo de lado a política. Sou como todo mundo. A política tem um lado folhetinesco de jogos de poder, ambições, ascensões e quedas. Isso acaba nos chamando a atenção ou nos cansando. Li sobre a destituição da presidente do Brasil. Não consegui entender o que aconteceu. Parei de ler. O que me interessa mesmo na política é seu aspecto tático, o jogo, as estratégias, a disputa, não o conteúdo.


ÉPOCA – Suas posições sobre religião criam polêmica. O islamismo radical continua a ser a grande ameaça para o Ocidente?

Houellebecq – Certamente. Os atentados aconteceram e vão continuar a acontecer. Quando uma religião, com setores extremistas, é minoritária num lugar, surge a possibilidade da ruptura. Normalmente, as religiões ajudam a organizar as sociedades. No caso do islamismo radical, ocorre o contrário, uma desestruturação. E é só o começo.


ÉPOCA – Uma onda conservadora parece avançar no Ocidente. Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, será presidente da França?

Houellebecq – Pode ser que ela chegue à Presidência da França algum dia, mas não será na próxima eleição. Apesar de estar sempre crescendo, ela ainda está muito distante de ter os votos necessários para ganhar uma eleição presidencial. O jogo já me parece jogado. François Hollande quer ser candidato, embora seja uma nulidade como presidente. Os socialistas talvez não saibam ainda como fazer para se livrar dele. Todos tentam convencê-lo a cair fora. Nicolas Sarkozy também quer voltar. Mas o próximo presidente da França deverá ser mesmo Alain Juppé [ex-primeiro-ministro, liberal, candidato nas primárias da direita francesa]. Ele largou na frente e tem tudo para ganhar. A rejeição a ele parece ser menor que a destinada a seus adversários.


ÉPOCA – O populismo ameaça as democracias ocidentais?

Houellebecq – O populismo é uma realidade. Também é verdade que se tem chamado de populismo qualquer tentativa de tirar o poder das elites. Há populistas demagogos e perigosos e há quem seja considerado populista por especialistas em estratégias de desqualificação. Os “novos progressistas”, gente da velha esquerda com roupagem nova, chamam de novos reacionários todos os que não seguem suas ladainhas. Quem não usa smartphone é reacionário. Quem quer mais democracia direta e menos politicagem convencional, também.


ÉPOCA – Há épocas de aceleração histórica inesperada. O Brexit representa um fracasso irreversível para a União Europeia?

Houellebecq – É uma pena que o Brexit não consiga derrubar a ideia de uma união europeia de vez. Não entendo a razão de tantos lamentos. Jamais encontrei um só ponto positivo no projeto europeu. Tudo está baseado em pilares falsos. Não há um só verdadeiro ponto cultural em comum entre os diferentes países para que eles queiram ou possam viver juntos abdicando de suas particularidades e da autonomia que cada um dispõe como nação independente. O fato de que a Justiça tenha decidido que o Parlamento britânico deve dar sua palavra sobre o que foi decidido em plebiscito é estranho, algo como uma invalidação da posição dos eleitores. Tomara que se confirme a saída. A União Europeia não passa de uma ideia de tecnocratas que nunca compreenderam bem as especificidades de cada país. Em todo caso, a saída da Inglaterra da União Europeia nada tem a ver com a chamada crise dos refugiados, como se costuma dizer por facilidade ou superficialidade. Os ingleses nunca se sentiram realmente parte desse projeto absurdo. A pergunta que todos deveriam se fazer todos os dias é esta: como foi possível embarcar tanta gente, tantos países, tantas línguas numa ideia tão inadequada e tão fadada ao fracasso?

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