terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Uma pequena reflexão sobre a coisa-em-si de Kant


Um dos grandes mistérios da filosofia iluminista, é o conceito kantiano de “coisa-em-si”. Depois de tantas interpretações sobre a “coisa-em-si” de Kant (salvo seja), já não faz mal que eu venha agora com mais uma.


Coisa-em-si (Ding an Sich)
Há uma coisa que é certa: Kant opunha a “coisa-em-si” ao “fenómeno”. O “fenómeno” — segundo Kant — é a manifestação objectiva e concreta da realidade conforme constatada pelo ser humano de uma forma intersubjectiva através da percepção (dos sentidos); o fenómeno é o objecto, com o qual o sujeito interage. Portanto, o fenómeno é a coisa; e a “coisa-em-si” é a essência da coisa.

Ora, a essência da coisa ou a “coisa-em-si” poderia ser a composição quântica de um objecto macroscópico se Kant não tivesse dito que a alma humana é a “coisa-em-si” do fenómeno “Homem”. Aqui, a coisa complicou-se ainda mais. Neste sentido, é muito mais credível a teoria dos mónadas de Leibniz do que a “coisa-em-si” de Kant (salvo seja).

A partir da “coisa-em-si” de Kant (santinho!) desenvolveram-se os conceitos mais abstrusos, como é exemplo o conceito de “coisicidade” de Heidegger. Segundo Heidegger, a coisicidade é a noção das “coisas enquanto coisas”. Para Heidegger, a coisicidade é conjunto da coisa e da “coisa-em-si” — tipo “dois em um” —, para além de que o ser humano, que é objecto de outro, passar a ser uma coisa e a fazer parte da coisicidade; a única coisa que não faz parte da coisicidade é o Das Sein, que é a presença existencial subjectiva (uma espécie de Eu egológico). Portanto, segundo Heidegger, existe o Eu e tudo o resto é composto por coisas, incluindo o meu vizinho do segundo-andar.

Se Kant ainda fazia a distinção entre um outro ser humano que não eu, e as coisas, Heidegger passou a dizer que a única coisa que não é uma coisa sou eu (se não estiver a acompanhar o raciocínio não se preocupe porque não perde nada com isso).

Tive um colega que tinha uma grande dificuldade em se fazer explicar; tipo: “ouve lá: pegas no coiso e escreves a coisa, e depois da coisa coisada, metes o coiso na coisa atrás do coiso para gravares a coisa”. O que ele queria dizer é que eu deveria gravar um trabalho em Excel na pen.
Se partirmos do princípio de que Kant concebia a alma (humana) como algo imanente (no sentido de imanência que é atribuído pela filosofia quântica, no sentido do formalismo da física quântica), o que parece ser o caso, então Kant concebia — em termos científicos actuais — a alma como a composição quântica de cada ser humano em particular. Mas sendo assim, a alma kantiana não poderia ser “consciência”. A composição quântica de um objecto não implica a necessidade da existência de consciência nesse objecto. A organização quântica de um objecto é previamente determinada por uma consciência — esta é anterior à composição quântica e determina-a.


Eugene Wigner, laureado com o prémio Nobel da Física, escreveu que «na mecânica quântica, o papel dos seres dotados de consciência deverá ser diferente daquele que é desempenhado pelos aparelhos de medição inanimados (…) Por outras palavras, a impressão obtida numa interacção, também chamada de ‘resultado de uma observação’, modifica a função ondulatória do sistema. Mais ainda, a função ondulatória modificada é geralmente imprevisível antes da impressão obtida haver penetrado na nossa consciência; é a entrada de uma impressão na nossa consciência que vai alterar a função ondulatória, pois ela vai modificar a nossa avaliação probabilística relativa a impressões diferentes que esperamos receber no futuro. É neste ponto que, inevitável e inalteravelmente, a consciência entra na teoria.» — Symmetries and Reflections, (Indiana University Press, Bloomington, 1967).

Isto acima foi escrito por um físico, e não por um metafísico.

O problema de Kant e de quase todos os pensadores depois dele, foi o de eliminar a transcendência e (algo inconscientemente) fazer da imanência (quântica) a própria transcendência. Por exemplo, é claro que para Heidegger a transcendência era imanência (no sentido quântico); e não só: quase todos os filósofos pragmatistas e existencialistas-materialistas do século XX (para não falar no materialismo dialéctico) seguiram este mesmo raciocínio enviesado, a partir do qual surgiu a noção de “coisa-em-si” e a coisicidade do coiso das coisas (Da-se…!).

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