sábado, 23 de setembro de 2017

Roger Scruton e a Beleza como valor universal

Por André,

Artigo publicado originalmente em: BARRETO, Andre Assi. "A Beleza Como Valor Universal". Revista Filosofia Ciência&Vida, São Paulo, ano VII, n°73, p. 24-31, agosto, 2012.

O artigo estava hospedado no site da revista, mantido pelo UOL, mas não se encontra mais disponível, portanto, disponibilizo-o na integra aqui. Felicita-me ter ajudado a divulgar em 2012 o importante documentário "Por que a Beleza importa?", bem como Sir Roger Scruton e sua obra em geral, quando o filósofo britânico ainda estava em tímida ascensão em território brasileiro.

Segue o texto, com pequenas variações:



Muito provavelmente todos já tiveram a experiência de, ao estar diante de obras de movimentos como surrealismo, dadaísmo, cubismo etc. – que podemos reunir sob o nome de “modernistas” –, ser preenchido por um sentimento de estranheza diante dessas obras pois, na maior parte das vezes, não primam pelo tradicional e universal critério da beleza; por muitas vezes serem feias ou simplesmente não terem (aparentemente) sentido algum. O próximo passo é rejeitar essas obras e não as considerar como arte. Essa é a reação do apreciador dotado do mero senso comum, que os adeptos das correntes estéticas “modernas” atribuem à incompreensão (pois o vulgo não teria o aparato necessário para “compreender”) ou ao preconceito.

            Contudo, há quem discorte. As coisas não são assim de acordo com a argumentação do filósofo inglês e nosso contemporâneo, Roger Scruton (1944), que dedica-se a este (entre outros) problema, faz uma apologia da Beleza e clama por uma retomada dela; Scruton faz isso especialmente em duas (de um universo de várias) de suas obras: o documentário encomendado pela BBC Why Beauty Matters? (Por que a Beleza importa? 2009) e no livro Beauty (Beleza, 2009, É Realizações, 2013). Para sustentar sua posição, Scruton remete-se a inúmeros filósofos, desde Platão, passando pelo Conde de Shaftesbury e indo até Kant (que teve seu pensamento influenciado pelo conde); também relembra que o objetivo da arte, seja a poesia, a música ou as artes plásticas, para qualquer pessoa letrada que viveu entre os séculos XVII e XIX, era a busca da Beleza (é importante notar essa lembrança feita por Scruton, tendo em vista que ele é um conservador, pretende reestabelecer parte da ordem desta época), um valor universal equivalente ao Bem e à Verdade (reportando-se também, portanto, a Platão).



            Um dos motes para exemplificar a argumentação de Scruton é o clássico “Urinol”, do francês Marcel Duchamp (1887 – 1968), obra em que Duchamp assinou um urinol com um nome fictício e o enviou para um museu para ser exposto como obra de arte. A partir do século XX, assevera Scruton, a arte deixou de buscar a Beleza e passou a fazer um culto à feiura, além de, por exemplo, ter por objetivo a originalidade a qualquer custo. Tal tendência não se restringiu apenas às artes plásticas, mas também tomou conta da arquitetura (Scruton também tem um excelente livro, este traduzido para o português, sobre arquitetura, intitulado Estética da Arquitetura, Edições 70, 2010), que se tornou estéril, o que, na opinião de Scruton, explica a quantidade de prédios abandonados e depredados na Grã-Bretanha e a popularidade de pequenos comércios com a tradicional arquitetura vitoriana.

            Dois cultos são responsáveis por essa tendência de certas correntes de arte moderna, o culto à feiura, já mencionado, cujo qual, ao virar às costas para a Beleza, faz com que a arte perca sua principal realização, que é ajudar-nos a atribuir sentido à vida, nos consolando das tristezas da vida ou, como para Platão, nos aproximar de Deus ou ainda, para os filósofos iluministas, nos ajudar a galgar alguns degraus que nos colocam para além das banalidades da vida cotidiana; e o culto à utilidade, cujo qual, faz com que o valor das coisas resida estritamente em sua utilidade prática; como Scruton menciona em seu documentário, Oscar Wilde já havia afirmado que “toda arte é inútil” – o que fora reafirmado por, por exemplo, Hannah Arendt. A Beleza (e a arte) não tem utilidade (no sentido pragmático moderno), mas é justamente nesse fato que Scruton ressalta sua importância enquanto valor universal, enraizada na natureza humana, escorando sua teoria em Shaftesbury e Kant, a fruição da Beleza é uma atividade desinteressada e, portanto, inútil. Mas isso desmerece a contemplação? Não, no mesmo sentido que a amizade, o amor ou a mera atitude de ouvir uma música, igualmente sem “utilidade prática”, não perdem seu valor.



            O segredo da arte tradicional, que servia de bálsamo para a vida, era sua valorização da criatividade, ao passo que os movimento artísticos atuais primam pela exaltação do feio, do banal e pela quebra de tabus morais, o que conduz primeiro à impressão e depois à óbvia certeza que todos, Scruton e nós, chegamos: boa parte do que aí está, sendo considerado obra de arte, não o é, algo não é transformado em arte, como num passe de mágica, por reproduzir as frivolidades cotidianas (um copo sobre uma prateleira de vidro – The Oak Tree, por Michael Craig, 1973 ou uma cama desarrumada – My Bed, por Tracey Emin, 1998) e chamá-las de arte, como se esse caráter fosse adquirido pelo decreto verbal do artista (para a tristeza dos desconstrucionistas, que acreditam que a realidade é determinada pela linguagem). Para que a arte retome sua trilha, é preciso que ela retorne sua face para a Beleza novamente, tal como fora prescrito pelos filósofos e praticado pelos artistas até então.




            A crítica de Scruton não se limita à arte, mas repousa sobre um diagnóstico muito mais amplo, que também é marca registrada da nossa época, chamada de pós-moderna: o total abandono e desprezo pela Razão, que fora tão bem tida pelos filósofos iluministas em especial e pelos modernos em geral. Deixam de existir os critérios universais – sejam lógicos ou de gosto – todas as opiniões são igualmente válidas, todas as culturas expressam formas de conhecimento igualmente dignas de consideração e têm o mesmo valor epistêmico. Grosso modo: trata-se do relativismo radical apregoado pela maior parte dos filósofos pós-modernos, que também são alvo da crítica feroz de Scruton, os mesmos Deleuze, Guattari, Foucault, Rorty et caterva. Isso significa que Scruton não se limita à esfera propriamente filosófica da questão (o que é Arte? Há critérios objetivos para defini-la e avalia-la? etc), mas avança no sentido sociológico do problema, isto é, tenta responder como chegamos a esse ponto, que tipo de sociedade produz e celebra o tipo de arte atualmente produzida etc.

            Certamente que, num mundo onde a ciência é considerada o mito fundante da nossa era, líderes islâmicos e prêmios Nobel são autoridades dignas de igual atenção tanto em matéria de física como de ética, pois, afinal, não há choque de culturas algum, nem “nossa” cultura está certa em permitir que homens e mulheres votem, tampouco a cultura islâmica está errada em desfigurar a face das mulheres adúlteras com ácido, trata-se apenas de culturas diferentes, dignas de igual respeito e consideração. Qualquer coisa diferente disso não passa de “preconceito ocidentalista”, argumenta Scruton, em algumas de suas obras e artigos.


            Inserindo a discussão estética nesse contexto mais amplo, fica claro que não há o menor espaço para a admissão de um gosto estético “melhor” ou “pior”, só existem gostos estéticos (sempre no plural): se o seu diz que uma lata contendo excrementos (Artist's Shit, por Piero Manzoni, 1961) é arte, quem são todos os outros para dizer que não? Isso porque não há verdadeiro ou falso, não há bem ou mal, certo ou errado, se nenhum desses existe, por que razão haveria espaço para o bom ou o mal gosto estético?

            Trata-se de um apelo colossal a um subjetivismo totalitário. Totalitário em que sentido? Nem mesmo os proponentes do relativismo acreditam no que propõem, pois são os primeiros a censurar aqueles que os reprovam, se todos os gostos estéticos são igualmente válidos, porque bradam bravamente contra os que têm um gosto estético fundado na Beleza? É muito simples: num contexto onde tudo é permitido, onde nada é proibido, é essencial proibir e censurar o proibidor. É um totalitarismo que exclui tudo ao seu redor, exceto os relativistas. E é exatamente o que é feito com Scruton, visto que o filósofo é, muitas vezes, deixado à margem do estabilishment acadêmico.

            Mas quais as razões que levam Scruton a rejeitar o subjetivismo estético? Como veremos a seguir, Scruton considera que a Beleza é um, dentre alguns outros, de uma série de valores que estão enraizados na natureza humana.

A Beleza enquanto inerente à natureza humana

            Talvez soe demodé falar de natureza humana hoje em dia (ou não, se aceitamos os interessantes argumentos de Steven Pinker em Tábula Rasa), quer em termos filosóficos quer científicos, mas a argumentação de Scruton segue esse caminho e indica que tanto a busca como a necessidade da Beleza são marcas indeléveis da natureza humana. Como uma das características essenciais da natureza humana é a racionalidade, é justamente na busca racional pela Beleza – autorizada pela nossa natureza, que podemos fugir do subjetivismo estético característico da nossa época: “nenhum gosto pode ser criticado, (...) já que que criticar um gosto nada mais é que dar voz a outro” (Beauty, 2009, p. IX, tradução nossa). Na contramão disso, Scruton argumenta no seu livro que os juízos estéticos têm fundamentação racional e, portanto, objetiva. Tanto o subjetivismo estético, “todos os gostos são equivalentes”, como o ceticismo, “não há verdade ou falsidade, erro ou acerto em termos de estética” são peremptoriamente rejeitados por Scruton com base na ideia que a Razão humana busca a Beleza.

            A Beleza, embora não entre em competição ou nem sempre necessariamente esteja lado-a- lado com a bondade, nossa incansável busca por ela enraíza ambas em nós, faz com que essa busca nos defina como humanos: “A Beleza está, portanto, firmemente enraizada no esquema das coisas, tal como a Bondade. Ela fala a nós, tal como a virtude fala a nós, trata-se de um preenchimento: não de coisas que desejamos, mas de coisas que devemos, porque a natureza humana as exige” (idem, p. 147, tradução e grifo nossos).

            Tal como as formas a prori da razão, apresentadas por Kant na Estética Transcendental, a Beleza é uma marca que nos define enquanto sujeitos racionais, capazes de compreender o mundo. Tanto sua busca como sua concretização nas mais variadas formas arte, são necessidades imprescindíveis a todo ser humano. Abdicar da busca pela Beleza, tal como a arte moderna faz, é abrir mão de uma herança cultural riquíssima, é fazer com que a vida seja mais difícil de ser vivida; é torná-la mais cinza fazendo com que a principal função da arte, que, como dissemos, é fornecer consolo para a vida diária, se perca.     

Retrato de Rosalba Peale, Remdbrandt

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes: 2007.

DUTTON, D. A darwinian theory of beauty. TED Talks, 2010. (Disponível em: http://www.ted.com/talks/lang/eng/denis_dutton_a_darwinian_theory_of_beauty.html)

SCRUTON, R. Beauty. Oxford University Press: 2009.

            . Estética da arquitectura. Edições 70: 2010.

            . The West and the rest.  ISI Books: 2002.

            . What ever happened to reason? 1999. (Disponível em: http://www.city-journal.org/html/9_2_urbanities_what_ever.html. Acessado em: 10/02/12)


            . Why Beauty Matters. BBC: 2009. (Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bHw4MMEnmpc.  Acessado em: 10/02/12)

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