terça-feira, 31 de outubro de 2017

500 anos de Reforma Protestante: mal negócio para o cristianismo

Por André,



Sem nem de longe querer entrar numa polêmica de tipo católicos versus protestantes, pois realmente considero que a guerra cultural é cruel com ambos, acredito que valha a pena algumas observações, de um ponto de vista bastante neutro, sobre o que a reforma protestante significou para a cristandade como um todo, especialmente se vermos a coisa "de fora".

Se a Cisma representou a divisão da cristandade em duas partes, a reforma protestante representou um verdadeiro e puro ESTILHAÇAMENTO da cristandade em literalmente quase que infinitos pedaços. Olhando de fora, isso é péssimo sinal.

Pensem em qualquer não-cristão que deseje se converter, que direção ele deve tomar? E usando uma argumentação protestante inclusive, não adianta dizer coisas como "aceitar Jesus como seu salvador", pois as diversas dissidências protestantes divergem sobre assuntos basilares e salvíficos (o batismo, por exemplo), de maneira que escolher corretamente realmente é importante.

Nesse ponto, me parece, o que a reforma protestante promoveu para a cristandade foi uma espécie de argumento muito utilizado por ateus. Muitos ateus gostam de perguntar a crentes "em qual deus acreditam" ou "não me meto nisso porque nem vocês se decidiram ainda". Ou ainda, se eu fosse um ateu propenso à conversão, meu ceticismo aumentaria exponencialmente se a mentira tivesse sido vitoriosa por 1.500 anos para que a verdade surgisse apenas com Lutero. Isso, é claro, caso não consideremos a possibilidade de nos tornar Testemunhas de Jeová (que rechaçam veementemente não apenas a Igreja Católica, mas também as demais dissidências protestantes) ou Mormóns, nesse caso a verdade esteve encoberta por mais de 1.800 anos, para ser finalmente revelada nos EUA há poucos anos. Tudo isso deve inspirar pouquíssima confiança num cético. Seria algo como ir ao médico com um problema mortal e encontrar 50 médicos, cada um prescrevendo uma solução diferente. Muitos escolheriam um, outros simplesmente não confiariam na medicina e procurariam outra coisa, afinal, onde impera tanta divergência só pode ser indício de incerteza e insegurança.

Ainda, me parece que boa parte da base protestante simplesmente não se sustenta: o princípio da sola scriptura não tem a sustentação bíblica que deveria ter, caso fosse a pedra de toque do cristianismo. E ainda, sem a autoridade da Igreja para determinar qual escritura é inspirada e qual não é não há Escritura e se não há Escritura, não há Só Escritura. E, eventualmente, aceitar a autoridade da Igreja apenas na determinação dos livros bíblicos representa a refutação em si mesma da doutrina, visto que a Igreja não pode ter extraído sua autoridade de escolha da própria Escritura antes de determinar qual é qual. E, por sua vez, o sola fides (que já é uma controvérsia "interna" do protestantismo) parece falhar no teste do sola scriptura, visto que a Bíblia é muito clara em afirmar que a salvação vem de uma conjugação entre fé e obras (e mais uma vez é possível acabar por se render a uma clássica objeção ateísta: "se Hitler se converteu em seu leito de morte então se salvou?").

Por fim, alguém certamente deve estar se perguntando após essas breves observações: se a coisa é tão óbvia assim, como explicar que tal crença ainda se sustente na cabeça de intelectuais verdadeiramente de peso (C.S. Lewis, William Lane Craig, Eric Voegelin e outros)? Ora, com a quantidade de religiões existentes, a menos que você seja um relativista muito - mas muito - louco ou negue que boa parte das religiões têm pelo menos um punhado de intelectuais em seu interior, a explicação só pode ser que a matéria religiosa é suscetível a tal coisa (o que só reforça a necessidade de um critério anterior à "interpretação dos intelectuais").

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