domingo, 15 de outubro de 2017

A filosofia como apologia da clareza

Por André,

O relojoeiro suíço, de Norman Rockwell

Sócrates notabilizou-se por sair às ruas inquirindo os sábios com perguntas do tipo "o que é?". Alegadamente sábios, muitos homens deveriam saber o que é o Bem, a Verdade, a Beleza, a Justiça, o Amor, o Mal etc. etc. Versados em história da Filosofia como vocês são, bem sabem que os supostos sábios não conseguiram responder apropriadamente as perguntas de Sócrates, sendo então expostos publicamente como ignorantes, o que rendeu notoriedade ao mestre de Platão e, em grande parte, fez com que toda a História da Filosofia passasse a ser dividida em antes e depois de Sócrates.

Os sábios não sabiam realmente nada e suas respostas confusas só faziam obscurecer os conceitos discutidos, sendo então a famigerada pergunta "o que é?" uma tentativa de definir com clareza do que se trata exatamente os conceitos mais caros à humanidade.

Não quero aqui, pode parecer a alguns, aderir a quaisquer escolas de Filosofia Analítica*, que sabidamente ganharam corpo à base da ideia de que toda a Filosofia se define por apuração da linguagem o que, (supostamente) por consequência, leva a apuração de conceitos. Quero provar apenas que a Filosofia tenta, por sua natureza e por excelência, tornar as coisas mais claras (o que pode parecer estranho aos ouvidos do "senso comum", que tende a associar filosofia com discussões sem fim, sobre temas obscuros em linguagem restrita - não apenas do senso comum, diga-se; Rousseau garantia que o homem em estado de natureza não tem inquietações filosóficas, pois sua condição mesma já torna claro tudo que é necessário o ser; ou Marx, que afirmava que os filósofos já haviam interpretado o mundo com seus sistemas complexos de pensamento demais).

Desnecessário dizer, pois já o disse, que aqui se toma claramente uma posição (em grande parte mas não totalmente) anti-moderna, certamente anti-pós-moderna e, em larga escala, por consequência, anti-francesa e anti-alemã, visto que todas essas escolas contribuíram fartamente para a ideia que a Filosofia se faz por meio de textos quase criptografados, tratando do mundo inteiro em teses e termos puramente abstratos e obscuros. Vale citar, para reforçar o argumento, o que já fora dito sobre pós-modernidade e Michel Foucault (e seu desejo aberto de ser obscuro para causar impressão de profundidade), escola e autor (entre tantos outros) que sacrificaram a clareza no altar da obscuridade (por vezes, ideológica).

David Hume, em suas Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral, trata de assunto semelhante (e não idêntico) ao diferenciar entre os filósofos morais, atrelados a certa "filosofia prática", uma "filosofia fácil", como Sêneca e Cícero e os metafísicos, como Aristóteles, Malebranche etc, praticantes de uma "filosofia abstrusa" (HUME, 2004, p. 19-33). Disso, podemos dizer que: não nos preocupa aqui o trato de assuntos elevados, por vezes, em si mesmo obscuros, visto que cremos que estes podem (e devem) ser expostos de forma clara. Exemplo disso é o próprio Aristóteles: o Organon e a Metafísica tratam de assuntos elevadíssimos e de difícil compreensão, porém, de maneira absolutamente inteligível e clara. E, ainda, o próprio David Hume na obra citada, faz - de forma anglosaxonicamente clara - tanto papel de filósofo da moral (a dita "filosofia fácil") quanto de metafísico ("geógrafo do entendimento humano"). É possível afirmar com satisfatória segurança: quem lê e não compreende David Hume está, provavelmente, com mais problemas em si próprio que no estilo do filósofo.

Por fim, foi Descartes quem afirmou, ipsis litteris, o que aqui se diz: o raciocínio filosófico deve ser claro e distinto. As proposições devem ser claras e distintas (por oposição às confusas e obscuras). Desnecessário dizer que, por aqui, adere-se ao disgnóstico cartesiano, mas não necessariamente ao seu método como um todo, como única via para se atingir clareza e distinção - tópico este para ser discutido alhures.

Pois bem, o que é uma percepção clara e distinta para Descartes? A resposta está no parágrafo 45 dos Princípios da Filosofia:

"Há mesmo pessoas que durante toda a sua vida não percebem nada em condições de bem julgar, porque o conhecimento daquilo sobre o qual se pretende estabelecer um juízo indubitável deve ser claro e distinto. Chamo conhecimento claro àquilo que é manifesto a um espírito atento: tal como dizemos ver claramente os objetos perante nós, os quais agem fortemente sobre os nossos olhos dispostos a fitá-los. E o conhecimento distinto é aquela apreensão de tal modo precisa e diferente de todas as outras que só compreende em si aquilo que aparece manifestamente àquele que a considera de modo adequado" (DESCARTES, s/d , p. 43).

Nas famosas Meditações Metafísicas, Descartes só procederá no estabelecimento de provar a existência do eu se puder fazê-lo de maneira clara e distinta. E da mesma forma para tudo que se queira conhecer de forma segura.

Essa tradição de apologia da clareza, que remonta a Sócrates, é mantida pelos escolásticos e, mesmo titubeante, mantém-se em boa parte dos autores anglo-saxões é, penso eu, marca definidora da própria Filosofia, que busca ser clara e expor com clareza aquilo que se propõe a explicar**, na contramão de grande parte do que se produz em Filosofia hoje: modernismo, pós-modernismo, estruturalismo e, tristemente, parte da tradição continental (hermenêutica, historicismo etc). De sorte que, afirmo peremptoriamente, se a Filosofia deseja sair de sua agonia deve recuperar sua longa tradição de clareza.


* Diagnóstico semelhante fez Mario Bunge (por quem não nutro grande simpatia), em texto que afirma que a Filosofia não está morta, mas está doente. Em forma de prova ao seu argumento diz que a atual debilidade da Filosofia se deve, basicamente, a essa confusão entre obscuridade e profundidade, além de preocupação obsessiva com linguagem (Wittgenstein). Aqui se trata menos de uma apologia (necessariamente e apenas) de linguagem clara e mais da própria clareza de afirmações, que usará, evidentemente, linguagem mais clara possível como meio para tanto.

** Não posso me furtar aqui de mencionar a tragédia da filósofa PO(O)P Márcia Tiburi em sua mais recente obra cometida Como conversar com um fascista; nela, afirma-se logo de entrada, que fascista é todo mundo que não gosta do Jean Wyllys. Toda a tradição de clareza, precisão e distinção conceitual da Filosofia fora reduzida a isso. 


Referências

DESCARTES, René. Princípios da Filosofia. Trad. João Gama. Lisboa: ed. Edições 70, s/d.

HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: ed. UNESP, 2004.

P.S.: Olavo de Carvalho, em aula onde comenta o que é uma obra de arte e as recentes polêmicas envolvendo QueerMuseum (Santander) e MAM afirma, com preocupação mais sociológica que epistemológica, que no Brasil todo mundo trata das coisas em sínteses confusas, devendo, portanto, passar dessas a sínteses claras:

Um comentário:

1. Seja polido;

2. Preze pela ortografia e gramática da sua língua-mãe.