quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Roger Scruton sobre Harry Potter

Por André,




Um historiador do futuro, olhando para o tempo em que vivemos, certamente identificará J.K. Rowling como uma figura de elevada importância. De uma forma que tinha poucos precedentes desde “Peter Pan” e “O vento dos salgueiros”, ela capturou a imaginação coletiva do povo britânico e preencheu nossas mentes com personagens e atitudes que serviram como um quadro de referência compartilhado. Não apenas em nossos devaneios, mas também em nossas esperanças e intenções. 


[...] Há alguns entre meus colegas literários que rejeitam os livros de Harry Potter como literatura inculta, baseada em personagens descartáveis lançados em enredos extravagantes que não vão a lugar nenhum. 

Eu não concordo com eles. J.K. Rowling desfruta do tipo de sucesso que apenas um escritor que tocou em sentimentos reais e universais pode alcançar. Ela tem talento para inventar personagens que engajam os sentimentos de leitores comuns e situações em que as emoções do dia-a-dia são, repentinamente e alarmantemente, colocadas em teste. Os enredos dela podem ser extravagantes, mas existem poucas – se houverem – pontas soltas; e tudo corre suavemente, da descrição ao diálogo, e vice-versa.

Ela também tem algo do talento de Dickens quando se fala em nomes. Dumbledore, Voldemort, Malfoy, Hagrid, Hogwarts. Esses e muitos outros são propriedades domésticas como Magwitch, Peggotty e Oliver Twist. De um modo geral, eu daria crédito à J.K. Rowling por dar uma real contribuição à literatura, ainda que literatura infantil. 

Há literatura infantil de dois tipos: de um lado existem as histórias que abordam especificamente o estado de espírito da criança, e brincam com aquelas emoções primordiais que são resíduos dos tempos das cavernas – deste tipo são os contos populares coletados e embelezados pelos Irmãos Grimm. Por outro lado, existe a literatura que não é voltada para a criança, mas para a idéia da criança; literatura que retrata a mente infantil, valoriza-a, e também usa-a para transmitir verdades sobre o mundo adulto. Entre as obras deste segundo tipo estão algumas das obras primas da nossa literatura, incluindo os livros de Alice, por Lewis Carroll, e a história de Mark Twain sobre Huckleberry Finn. 

Literatura infantil deste segundo tipo é sobre o mundo como realmente é, mas escrito de uma forma que coloca a inocência e a ingenuidade da criança no centro da narrativa. A literatura infantil do tipo menos artístico não é sobre o mundo como realmente é, mas é sobre o mundo na percepção da criança, quando privado da sabedoria e da experiência adulta. É um mundo mágico, organizado por poderes ocultos e feitiços. É também um mundo simplificado onde bem e mal são revelados em termos concretos e dividem a realidade entre eles. É um mundo sem responsabilidades, uma vez que elas estão em outras mãos. 

E a criança que cai num mundo como esse só precisa de um tipo de conhecimento, que é o conhecimento de feitiços que irão invocar as forças do bem para protegê-la e afastar as forças o mal.

Tal mundo é o descrito e ricamente mobiliado por J. K. Rowling e sua narrativa astuta, que irão trazer total aprovação de todos aqueles que algum dia tentaram contar uma história de ninar. Mas isso levanta questões importantes sobre nossa cultura. Apesar dos livros de Harry Potter serem para crianças, eles deixaram de ser histórias de ninar e invadiram o dia-a-dia de trabalho adulto. Os nomes dos personagens estão na boca de todo mundo; a internet oferece os nomes de Harry Potter para cachorros, gatos e pôneis; a própria J.K. Rowling te convida para batizar seu político mais odiado com os recursos do léxico dela: A Sra. May* é claramente uma Dursley, mesmo que Corbyn** não tenha alcançado o status de Dumbledore.

O aspecto mais interessante das histórias de Harry Potter, antropologicamente falando, é que elas acreditam numa forma de fascínio antiquada e bem inglesa, ao mesmo tempo que evita qualquer tipo de referência a nossas crenças religiosas tradicionais. Hogwarts é uma escola tradicional inglesa, com abadias e uniformes, com jogos que instigam as velhas virtudes esportivas e a disciplina hierárquica, associada com jantares formais e discursos cerimoniais. É uma grande catedral gótica, mas sem altar, hinos ou orações. 

Então como o encanto é mantido? A resposta é: por magia. E essa magia é a criação soberba de Rowling, que preenche todo lugar que a religião teria ocupado, enquanto tira o conflito entre bem e mal do plano de fundo cósmico e o coloca num plano de ações humanas. O conflito é revelado nas formas e faces, nas fissuras e fantasias, nas silhuetas e sombras desta instituição assustadora. Como disse o poeta invocado por Shakespeare, Rowling deu “a dois nadas etéreos” (two airy nothings) um local habitado e um nome. 

Mas a forma de encanto dela também nos lembra por que religião e magia estiveram em oposição. A religião nos diz que nós não temos poder sobre o mundo e que devemos aceitar nossas limitações, reconhecendo que nossa salvação depende de Deus, que vai nos resgatar. Quando nós rezamos, não ordenamos que o mundo nos obedeça, ao contrário, nos humildemente admitimos nossa falta de poder e pedimos a Deus que intervenha em nosso bem. Oração é o reconhecimento da nossa fraqueza e ao mesmo tempo é a solução para merecer a ajuda de Deus. 

Nesse aspecto, orações são o exato oposto de feitiços. Aquele que conjura um feitiço está assumindo poder sobre a realidade. Ele não tem a necessidade de nenhum Deus, já que ele é Deus; ele está assumindo poder sobre o criador e subjulgando a vida e a matéria a sua vontade. 

[...] Eu distingui dois tipos de literatura infantil: o tipo que explora os medos e esperanças primordiais de uma criança, onde a magia desempenha um papel de controle; e a parte que olha, com os olhos da criança, o mundo adulto real, e traz uma medida de inocência que ensina à criança a ver a sua própria. 
Lewis Carrol, que elevou o segundo tipo de literatura ao nível artístico mais elevado, era um matemático – com um cérebro científico frio e claro – cuja heroína luta contra a ilusão com todo seu poder de raciocínio encantador. Ela é uma criança que quer ser adulta, explorando as sombras da própria imaginação e acendendo a luz da razão que irá afastar estas sombras.

As histórias de Harry Potter são o exato oposto disso. Elas mostram um mundo adulto completamente invadido por medos e delírios infantis: magia e mistério são a moeda em que todas as transações são mensuradas; a varinha, o feitiço e o estoque de conhecimento oculto dispensaram qualquer tipo de disciplina espiritual; todo personagem é bem ou mal por natureza e não há processo de desenvolvimento, nenhuma passagem de renúncia ou oração, onde o herói ou a heroína pode se preparar para enfrentar as provações da real existência adulta. Todos os obstáculos são sonhos que podem ser dissipados num passe de mágica, e ninguém precisa que nenhum poder que não possa ser obtido por coisas deste mundo, basta apenas conhecer os segredos. 

Nós esperamos que a criança pensa e sinta desse jeito por que elas ainda têm que se libertar do tempo das cavernas. Mas nós também esperamos que elas cresçam, saiam disso, e dirijam-se ao mundo com total consciência de sua complexidade, aceitando o paciente trabalho da ciência e a necessidade de humildade e entendimento. A religião é um dos caminhos para sair da magia primitiva e para encarar o mundo com clara compreensão dos fatos que não controlamos. Crescer significa que o mundo não vai entregar bens apenas por que nós queremos. A visão de mundo adulta é o oposto da postura mental do Potterismo. 

Mas o Potterismo está começando a prevalecer. O herói de Rowling e suas circunstâncias invadiram tanto a cultura que pessoas estão começando a viver numa “Hogwarts cibernética”, acreditando que tudo está sob do seu poder, uma vez que querer alguma coisa é metade do caminho para obtê-la. [...] Se você sofre de uma overdose de Harry Potter – e vê o mundo real também em termos de poderes ocultos e feitiços que os libertam – você é mais suscetível a pensar que o que você quer será conseguido apenas clicando numa tela. 


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