terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Duas observações sobre "cultura"

Por André,

A primeira, por Carlos Kramer, em seu perfil no Facebook:


"Funk é cultura". Sim, funk é cultura no mesmo sentido em que jihadistas decapitando infiéis é cultura. No sentido amplo, cultura é qualquer merda resultante das relações humanas. Esquartejar criancinhas vivas e assar no forno pode perfeitamente ser uma cultura. Supremacismos raciais são culturas também. Um antropólogo pode - e em certo sentido até deve - se interessar por qualquer manifestação cultural, tanto quanto um historiador pode se voltar para qualquer época com olhar de historiador. Ambos, historiador e antropólogo, evitam o juízo de valor sobre seus temas de estudo por razões metodológicas (vide o excelente texto do Flavio Gordon publicado nos comentários). Mas isso não quer dizer que um juízo de valor não possa ou não deva ser feito.

É aí que mora a pegadinha. Normalmente, quem diz que funk é cultura está partindo do sentido lato que a antropologia cultural dá ao termo "cultura" para levar o interlocutor a acreditar que funk é cultura stricto sensu, no sentido daquilo que as sociedades cultivam com propósitos construtivos ou elevados. Mas, nesse sentido, o funk é justamente o oposto de uma cultura. O resultado do funk é pura e simples desestruturação social. Apologia do tráfico, apologia do estupro, objetificação das mulheres (e das meninas), incentivo ao ódio, isso é o que você vai ouvir se tiver 30 minutos de contato com o funk que se faz hoje. Infelizmente, eu sou obrigado a ouvir quando as casas de festa aqui do bairro colocam essas porcarias para tocar.

É um jogo de palavras para desarmar a resposta de algum desavisado. O sujeito diz "isso é cultura" na esperança de que você entenda cultura no sentido de civilização e traduza internamente para "isso é algo bom". Mas, se você responde que "isso é uma merda", a tréplica vem na forma de uma definição antropológica de cultura.


A segunda por Flavio Gordon, antropólogo, também em seu perfil no Facebook:

Qualquer antropólogo que reivindique a autoridade científica de sua disciplina para negar categoricamente a existência de diferenças de valor entre culturas (ou elementos de uma mesma cultura) está sendo desonesto. Desconsiderar diferenças de valor entre culturas é um imperativo METODOLÓGICO da antropologia. Logo, não se pode deduzir dele a conclusão ONTOLÓGICA sobre a existência ou inexistência daquelas diferenças.

O antropólogo, qua antropólogo, não pode estar interessado, no decorrer de suas investigações, em saber se um certo fenômeno cultural é melhor ou pior, mais bonito ou mais feio, mais justo ou injusto que outro. Ele adota de partida uma restrição metodológica, uma suspensão momentânea do juízo de valor. Logo, se ele não investiga diferenças de valor entre culturas - pois que essa investigação arriscaria a própria condição de possibilidade de sua ciência -, ele não pode afirmá-las ou negá-las. Fazê-lo seria tão ridículo quanto, em uma análise da situação do Brasil, abster-se de investigar os fatores econômicos para, em seguida, concluir que estes não exercem qualquer influência sobre aquela: “Olha, eu não vou tratar dos fatores econômicos. LOGO, eles não existem”.

E, no entanto, o que mais há por aí são antropólogos dizendo que a antropologia “provou” a inexistência de diferenças de valor entre culturas ou a impossibilidade de se estabelecer uma hierarquia valorativa entre o último funk da Anita e o Réquiem de Mozart. E pior: não satisfeitos em confundir uma questão de método com a realidade das coisas, há antropólogos que deduzem da precaução metodológica particular à sua disciplina a impossibilidade universal de se investigar diferenças de valor entre culturas, destarte interditando por decreto áreas inteiras de conhecimento, tais como a filosofia moral e a estética.

Deslumbrado com a sua própria província, o sujeito deixa de ser Homo sapiens e reduz-se à condição de Homo anthropologus, variedade particular daquilo que Ortega y Gasset chamou de “novo bárbaro” - o idiota moral e estético que só olha o mundo a partir de sua especialidade acadêmica e que, também a partir dela, emite os mais altissonantes decretos e mandamentos universais.

Quem é que nunca topou com um desses caipiras em algum programa televisivo?

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