segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Jessé Souza é a intelectualidade orgânica petista melhorada. Meu artigo para o Gazeta do Povo: "Lições de realidade invertida, ou: como não devemos entender o Brasil"

Por Gazeta do Povo,



A tese do sociólogo Jessé Souza (UFABC) em seu mais recente livro, “A Elite do Atraso”, é ousada (e poderiam dizer alguns, sem receio, até revisionista): tendo por principal alvo Sérgio Buarque de Holanda e sua interpretação do Brasil em “Raízes do Brasil”, a marca da sociedade brasileira não seria o patrimonialismo – e tampouco a cordialidade, o “jeitinho brasileiro” de DaMatta etc., tratados por Souza como “generalidades” acerca do brasileiro (p.10) – mas sim a escravidão (e não a colonização portuguesa ou a miscigenação, conforme também afirmaram os intérpretes clássicos do Brasil). Contudo, a ousadia maior da hipótese está, por incrível que pareça, menos nesse aspecto e mais na motivação que Souza atribui para que a versão de Holanda tenha prevalecido: a manutenção da crença no imaginário das pessoas em geral que a corrupção é o maior mal brasileiro e, por consequência, seu combate o maior objetivo da política.

                Certamente não por engano a operação Lava Jato compõe o subtítulo da obra: se somos marcados pelo patrimonialismo, concentrar poder nas mãos do Estado é equívoco apocalíptico: o Estado é mau gestor, então a administração deve ser transferida o máximo possível para as mãos do mercado e para efetivar a tarefa é necessário vilipendiar as empresas estatais, a começar pela sua maior figura, a Petrobrás (a privatização da Vale é tida como um erro notório por Souza, p. 13), de modo que se inculque nas massas a necessidade de vendê-la para o capital estrangeiro, capaz de administrá-la com eficiência e de maneira impoluta. A narrativa é relativamente simples e não é original, é a ideia de que estaria em curso uma operação para entregar nossa petrolífera aos malvados americanos. Embora não seja citado diretamente, o juiz Sérgio Moro (junto da “mídia”) é reduzido a agente a serviço dos interesses estrangeiros em nossas riquezas nacionais: “o que a Lava Jato e seus cúmplices na mídia e no aparelho de Estado fazem é o jogo de um capitalismo financeiro internacional e nacional ávido por ‘privatizar’ a riqueza social em seu bolso. Destruir a Petrobrás, como o consórcio Lava Jato e grande mídia, a mando da elite do atraso, destruiu, significa empobrecer o país inteiro de um recurso fundamental, apresentando, em troca, não só resultados de recuperação de recursos ridículos de tão pequenos, mas principalmente levando à destruição de qualquer estratégia de reerguimento internacional do país” (p. 12). Note-se bem que a corrupção é jogada para escanteio em nome do nacionalismo, propositalmente ignora as ações da elite do atraso petista, capazes da proeza de fazer uma petrolífera dar prejuízo (tal como se observa na Venezuela ou viu-se com a ANCAP uruguaia, levada à bancarrota pelo pitoresco Mujica).

Não se deixe de notar que se trata da oficialização da versão da nomenklatura petista para a quebradeira da Petrobrás, apenas agora travestida de nova interpretação brasileira. Essa é a diferença substancial de “A Elite do Atraso” para “A Radiografia do Golpe”, do mesmo autor e publicado pela mesma editora; enquanto este último, que veio a público em tempo recorde, quase imediatamente após o impedimento de Dilma Rousseff, é mera caixa de ressonância da narrativa dos sites governistas, o primeiro se propõe a mesma tarefa, mas não sem também tentar oferecer uma explicação “profética” (termo usado por Souza para se referir a Holanda) do Brasil.

                Desse modo, é preciso salientar onde exatamente Jessé Souza está inserido. Trata-se, creio, de uma nova roupagem para a intelectualidade orgânica do PT, que ou deixa de lado ou cria alternativa para o caráter histriônico dos arroubos de uma Marilena Chaui para então alçar voos efetivamente mais altos, é menos fazer a plateia rir – em parte por vergonha e em parte por acordo – e mais fincar bandeira na ciência política nacional. O próprio Jessé, quem vim a conhecer exatamente por essa razão (do minuto 39:50 ao 57:50), é crítico da intelectualidade uspiana, bem como do modo uspiano-paulista de entender o Brasil, trata-se, portanto, de uma crítica à esquerda “da esquerda”, sob o fundamento do que poderíamos chamar de “tradicional” (ou ainda, extremada, pois propõe soluções ainda mais à esquerda para os problemas inflados pelas versões moderadas de suas políticas). Isso também atesta a impressão de que o autor e seus pares querem bem mais que apenas reforçar a narrativa de extrema-esquerda sobre casos de corrupção no Brasil nos últimos anos. A metáfora do lobo em pele de cordeiro nunca fez tanto sentido, como em toda ditadura eficiente, uma infantaria de intelectuais é posta em marcha para que a versão do partido se converta em Ciência – e, portanto, em “verdade” com o peso de revelação divina; o esforço em reaver a sociologia nacional (sobrando até para um dos fundadores do PT, Raymundo Faoro!) não deixa mentir.

Valem aqui três adendos finais: o livro foi escolhido como melhor do ano de 2017 pelos leitores da Amazon e meu próprio artigo se coloca à guisa de resposta à obra de Jessé Souza. Quando a direita conseguirá deixar de ser apenas reativa e adentrará a seara propositiva? Enquanto não o fizermos, só restará a repetição das versões da intelectualidade orgânica do PT (quer a oficial, quer a “do B”) para explicar o Brasil – e se é para recorrer a algo ainda não consagrado como clássico da sociologia nacional, fiquemos com Mario Vieira de Mello, João Camilo de Oliveira Torres e José Osvaldo de Meira Penna, para citar três pesos-pesados – porque são as únicas que existem até agora.

Se compreendida apropriadamente, dentro do quadro conceitual da mentalidade revolucionária, esse esforço atlântico em reduzir a relevância do combate à corrupção também é mais que mero exercício de intelectualismo oficial. A mentalidade revolucionária de fato vê a corrupção (e a criminalidade urbana, acrescento) não apenas como possível mal menor, mas até como aliada pontual, visto que o projeto de chegar ou se manter como estamento, isto é, por o Estado em situação de sítio, é um fim em si mesmo justificado por qualquer meio (e alardeado com os chavões “defesa das riquezas nacionais”, “distribuição de renda”, “justiça social”, como é sabido).

Em época de desgaste e total falta de credibilidade da classe intelectual, que errou quilometricamente o alvo em virtualmente tudo que importa na última década e meia, como é possível não apenas que a versão esdrúxula de Jessé Souza ganhe corpo, mas que passe batida aos olhos mais atentos, senão sem uma resposta pontual, ao menos com a devida exposição como produção subserviente à elite que atrasou o Brasil nos últimos 13 anos, a saber, o corrupto estamento lulo-petista?

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