sexta-feira, 22 de junho de 2018

Pachecos, pachequismo ou: torcer é irracional

Por André,


“Pacheco”, mascote torcedor da copa de 1982 que virou símbolo e sinônimo de torcedor irracional

Perdoem o textão, mas esse “manual do analista” está engasgado na garganta desde antes do início da Copa, até para prevenir o que está ocorrendo agora. Antes que eu pareça profeta do passado, vamos às observações:
1) ESTÁ “PERMITIDO” TORCER. Minha posição não é contra “torcida” nem contra o torcedor. Acho um sentimento normal e, em nível de sociedade, até positivo. Bom para o “Volksgeist” (não é pedantismo, é que ainda há espaço para análises com um quê sociológico no futebol, reforçando a falta que faz entre nós um Nelson Rodrigues). Porém, JAMAIS se deve esquecer que torcer é um sentimento IRRACIONAL. Caso não fosse, só haveriam torcedores dos times super-vencedores e grandes. O cara que torce pro time pequeno sabe que o time dele não vai ganhar nada grandioso, mas mesmo assim torce. Uns torcem só pra esse time de menor expressão, outros adotam um maior e por aí vai, porque a escolha por quem você torce não é técnica e racional, mas determinada por fatores incontroláveis, irracionais e normalmente imunes à análise racional. O futebol tem essa aura de irracionalidade que o ronda e isso faz parte da sua mística. É pura análise factual, sem tom de crítica ou intenção de mudança.
2) EU NÃO TORÇO. A última vez que torci pela seleção brasileira foi em 2002. Torcer mesmo — e vale lembrar o que é torcer: gritar, xingar, aumentar o volume da TV, querer que ganhe a todo custo (com a ajuda da arbitragem, sem, jogando bem ou mal, de maneira soberana ou sôfrega, no último minuto etc.). Acho que esse texto não se trata das minhas motivações para não torcer mais para o Brasil. Mas o fato é que eu não torço. Ponto. Eu (tento) fazer análise (não quero posar de analista isento e onisciente, enfatizo o TENTAR, não quer dizer que acerte e faça com 100% de precisão sempre, mas é uma meta). Como normalmente o público do futebol sempre faz. Eu faço tudo que um torcedor (cuja existência está “permitida” e até é saudada, conforme 1) não faz. Em Copas do Mundo, de 2002 até então, o que eu quero ver em Copas é o bom futebol e que boas ideias de jogo sejam brindadas com a vitória. Com exceção de 2006 (sem demérito algum para a Itália e muito menos para seus torcedores), acho que isso ocorreu em 2010 e 2014. Desse meu ponto de vista fiquei satisfeito com as vitórias de Espanha e Alemanha, achei que duas boas ideias de jogo (a primeira influenciando a segunda, inclusive) e duas excelentes gerações foram brindadas com uma Copa do Mundo. Eu não quero um universo futebolístico onde as ideias predominantes são as de Dunga, Felipão ou Parreira. Então eu não “torci” para Alemanha ou Espanha, não me pintei, não gritei, não ergui o volume da TV. Eu não torço, eu quero a máxima realização possível do melhor futebol possível.
3) Considerando 1 e 2, vem inevitavelmente a questão do PATRIOTISMO. Essa questão me persegue desde que abandonei a torcida, mas é preciso admitir, se está permitido torcer, também está permitido não torcer, sem débitos “civis” para não torcedores. Primeiro, eu acho que muita gente seca a seleção brasileira, mas ninguém se pinta, compra camisa, grita a cada lateral em favor dos adversários do Brasil. Outro detalhe: não superestimem torcida, torcida não muda NADA. Exceção feita a algumas torcidas de clubes argentinos, torcedor não apenas não altera a ordem dos fatores como, às vezes, contribui negativamente. Por ser irracional, é volúvel, tudo está bem ou mal conforme a direção do vento. Torcer é superestimado e a postura reativa de torcedores com relação a não torcedores só mostra isso. Está permitido torcer, quem quiser torcer, que torça, quem não quiser, idem. Nada muda.
Os próprios torcedores deveriam se prevenir contra a associação entre não torcer e antipatriotismo. O símbolo nacional desse suposto patriotismo é Galvão Bueno e bastante emblemático desse patriotismo sazonal. Em Copa do Mundo é hora de ficar rouco pelo Brasil, nos demais 47 meses de vida normal é hora de se encastelar luxuosamente em Mônaco. Esse cara é mais patriota que eu, cidadão em absoluto acordo com seus deveres civis e que não acresce nada em nenhuma estatística negativa (de tantas, como também se perdem ao citar o pessoal do “o IDH da Suíça é melhor que o nosso)? Em Copa do Mundo você torce, grita, se pinta, coloca a “pátria na chuteira”, mas depois volta à rotina normal de degradação social, mas o patriota é você e não eu? É nesse tipo de análise que o irracionalismo torcedor se traveste de analista isento.
Em suma: torcedores, torçam! E não encham o saco. Não torcedores, não torçam, fundamentem melhor sua posição (nós é que somos o elefante branco no meio da sala) e também não encham o saco. A postura reativa que pode eventualmente aparecer dos dois lados, mas normalmente aparece mais do lado torcedor deixa transparecer quem é o líder cuja liderança não está clara e precisa ser provada a cada instante (fato que, aliás, precisa ser compreendido urgentemente por brasileiros, a seleção brasileira é penta sim, isso é um fato histórico honorável, mas não é mais bicho papão, leva de 7 em casa, toma sufoco de Suíça, ganha nos acréscimos de Costa Rica etc.). Ninguém é menos patriota, menos cidadão, menos cumpridor de deveres, menos brasileiro por não torcer para o Brasil. Mais torcida e menos pachequismo.

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