segunda-feira, 16 de julho de 2018

Tese de Robert Paxton: fascismo foge da dicotomia direita/esquerda e teve liberais e conservadores como companheiros de viagem

Por André,


Estou a ler um clássico sobre o fascismo, o The Anatomy of Fascism, do professor da Columbia University Robert Paxton e a confirmar algumas impressões que tinha intuitivamente ou como fruto de outras leituras, um pouco desconexas.

O fascismo era anti-liberal, anti-burguês, anti-marxista e anti-conservador e em alguns sentidos, revolucionário, ainda que tenham existido liberais (em sentido clássico) e conservadores que tenham se tornado companheiros de viagem do fascismo pois preferiam este em detrimento do bolchevismo.

Ainda, sim, o fascismo era antissocialista, mas o que muitos esquerdistas desconsiderarão é que fascistas eram antissocialistas porque passaram a considerar o socialismo de seus respectivos países internacionalista, "pacifista" (oposição à entrada na Primeira Guerra Mundial, naquele momento tida como "guerra imperialista") e "democrático" demais. Ou seja, todos saíram do seio do socialismo de seus países e tinham problemas com esses aspectos do socialismo. Mussolini é o caso a ser citado e os comentaristas debatem até hoje quando foi exatamente o momento de abandono do socialismo da parte de Mussolini.

Seguem alguns trechos que corroboram as informações acima:

"O programa fascista, divulgado meses mais tarde, era uma curiosa mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma espécie de "nacional-socialismo". Do lado nacionalista, ele conclamava pela consecução dos objetivos expansionistas italianos nos Balcãs e ao redor do Mediterrâneo, objetivos esses que haviam sido frustrados meses antes, na Conferência de Paz de Paris. Do lado radical propunha o sufrágio feminino e o voto aos dezoito anos de idade, a abolição da câmara alta, a convocação de uma assembleia constituinte para redigir a proposta de uma nova constituição (presumivelmente sem a monarquia), a jornada de trabalho de oito horas, a participação dos trabalhadores na "administração técnica das fábricas e a "expropriação parcial de todos os tipos de riqueza", por meio de uma tributação pesada e progressiva do capital, o confisco de certos bens da Igreja e de 85% dos lucros de guerra" (p. 16 e 17).

Sempre gostei de destacar quando o debate sobre o enquadramento do nazismo no espectro político surge que, sejam nazismo e fascismo socialistas e revolucionários ou não, é inegável que sempre quiseram ao menos PARECER socialistas. Seus programas não podem indicar isso de maneira menos clara.

"Os sindicalistas pró-guerra haviam sido os companheiros mais próximos de Mussolini durante a luta para levar a Itália à guerra, em maio de 1915. Na Europa anterior à Primeira Guerra Mundial, o sindicalismo era o principal rival da classe trabalhadora do socialismo parlamentar. Embora, por volta de 1914, a maioria dos sindicalistas estivesse organizada em partidos eleitorais que competiam por cadeiras no parlamento, estes ainda mantinham suas raízes sindicais. Os socialistas parlamentares trabalhavam por reformas pontuais, enquanto esperavam pelos desdobramentos históricos que tornariam o capitalismo obsoleto, tal como profetizado pelos marxistas, ao passo que os sindicalistas, desdenhando as concessões exigidas pela ação parlamentar, e também o fato de a maioria dos socialistas estar comprometida com a evolução gradual, acreditavam que poderiam derrubar o capitalismo com a força de sua vontade" (p. 17).

"É difícil situar o fascismo no tão familiar mapa político de direita-esquerda. Será que mesmo os líderes dos primeiros tempos saberiam fazê-lo? Quando Mussolini reuniu seus amigos na Piazza San Sepolcro, em março de 1919, ainda não estava bem claro se pretendia competir com seus antigos companheiros do Partido Socialista Italiano, à esquerda, ou atacá-los frontalmente a partir da direita. Em que ponto do espectro político italiano se encaixaria aquilo que ele, às vezes, ainda chamava de "nacional-sindicalismo"? Na verdade, o fascismo sempre manteve essa ambiguidade" (p. 28).

"Para eles, a esquerda socialista e internacionalista era o inimigo, e os liberais eram os cúmplices do inimigo" (p. 43-44).

"De modo geral, os conservadores europeus, em 1930, ainda rejeitavam os princípios da Revolução Francesa, preferindo a autoridade à liberdade, a hierarquia à igualdade e a deferência à fraternidade. Embora muitos deles tenham visto os fascistas como úteis, ou mesmo essenciais, em sua luta pela sobrevivência contra os liberais dominantes e uma esquerda em ascensão, alguns tinham aguda consciência de que seus aliados fascistas seguiam uma agenda diferente e sentiam uma aversão desdenhosa por esses forasteiros rudes. Quando o simples autoritarismo era o bastante, os conservadores o preferiam. Alguns deles mantiveram sua postura antifascista até o fim. A maioria dos conservadores, entretanto, estava convicta de que o comunismo era pior. Se dispunham a trabalhar com os fascistas caso a esquerda mostrasse a possibilidade de triunfar" (p. 48).

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