sábado, 19 de janeiro de 2019

Prospectos para o Brexit

Por André,



O prospecto de um segundo referendo no Reino Unido se torna cada dia mais provável - embora eu ainda duvide um tanto. O ex-premiê Tony Blair está em campanha por isso, o partido Liberal-democrata, reduzido a pó nas últimas eleições gerais, está em campanha por isso. O Brexit-man, Nigel Farage, vem alertando para sua possibilidade todos os dias.

É do histórico da UE tentar (e conseguir) reverter resultados populares do seu desagrado, isso já foi tentado e obtido na Irlanda e na Noruega.

Contudo, estou vendo a trincheira favorável à ideia novamente cheia de si e demasiadamente crente que dessa vez venceriam o voto. Pode ser arrogância, excesso de confiança, crença numa eventual falta de lisura no processo.

Por duas vezes assistindo um programa popular da BBC, o Question Time, vi um membro da plateia e hoje mesmo um membro do partido Trabalhista (Diane Abbott) citar o famoso ditado americano "cuidado com o que deseja, você pode acabar conseguindo".

Na outra vez, o membro da plateia falou que um segundo referendo poderia levar "um Donald Trump ao poder". Hoje, Abbott disse, apesar de defensora da permanência na UE, não crer na vitória da sua posição.

Tentar outro referendo, para agora obter o "resultado correto", coisa que o governo disse que levaria pelo menos 1 ano para ser organizada, pode despertar ainda mais raiva nos leave voters e mais raiva das pessoas contra a classe política.

A análise não me parece de toda errada.

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O acordo ruim de May foi rejeitado no Parlamento por margens históricas. Os jornais deram ares de fim ao brexit, mas a coisa é bem mais complicada:

- o artigo 50 foi acionado e o governo tem até 29 de março para sair da UE. Uma indecisão pode conduzir a uma saída sem acordo algum (possibilidade que Jeremy Corbyn quer descartar para começar a negociar qualquer outra coisa). O prazo do artigo pode ser estendido, mas todos os membros da UE precisam concordar com isso.

- May promete tentar negociar com parlamentares da oposição um novo acordo. Com todo o desgaste e a desconfiança dos parlamentares tories quanto a sua liderança tornam isso altamente improvável. 118 tories votaram contra o acordo de sua líder.

- Um segundo referendo precisa ser aprovado pelo parlamento, organizado e não há certeza de um resultado diferente. Um resultado inverso e apertado manteria o clima de tensão no país.

- Jeremy Corbyn quer eleições gerais, é claro, porque crê que pode vencer. Além de sua vitória não ser exatamente certa, os mesmos problemas continuariam e acreditar que o parlamento concordaria com sua versão do acordo é wishful thinking.

- é pura especulação achar como isso afeta a imagem da UE, das classes políticas e do Reino Unido nos demais países. Pode despertar tanto um desejo de permanecer longe de um caos como esse em caso de eventual saída da UE, como pode estar mostrando o desprezo da classe política e dos burocratas europeus para as decisões soberanas internas dos membros do bloco.

Uma coisa é certa, a emoção está garantida.

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