sábado, 30 de março de 2019

O retorno do cão arrependido: o direitismo do nazismo

Por André,

A discussão sobre o esquerdismo, direitismo ou "terceira via" do nazismo voltou (e tenho a impressão que voltará ainda outras vezes).

Antes eu achava esse debate interessante, recentemente tenho achado um porre.

Então vou dizer algumas coisas que considero importantes e que fogem do arroz-com-feijão da discussão (coletivismo, partido socialista etc.):

a - a turma que dá carteirada com "especialistas alemães dizem isso ou aquilo" são os mesmos que acreditam em teorias da conspiração descartadas por autoridades como gênero/sexo ser construção social, conluio com a Rússia, Lula inocente, zapgate e outras. Ou seja, o uso das tais autoridades é pura carteirada conveniente.


b - costuma-se negligenciar o caráter estratégico-propagandístico da acusação de direitismo exemplar do nazismo. Quem está acostumado a debates históricos sobre a Segunda Guerra sabe que os comunistas gostam de fazer revisionismo histórico para tomar para si todos os créditos pela derrota de Hitler (imagem de Stálin dando cruzado em Hitler), quando, na verdade, a URSS aliou-se aos Aliados tardiamente e pode combater graças a muitos dólares americanos e ao importante trabalho das Forças Aéreas Reais (RAF). Propagandisticamente, tornou-se interessante a soviéticos se venderem como únicos combatentes do fascismo e, por corolário, empurrarem para o colo de qualquer opositor a pecha de "fascista".


c - o cara do ataque à Nova Zelândia. Foi classificado de extremo-direitista e neonazista. O que tem de direitismo emblemático naquele sujeito? Não é conservador (pelo menos em qualquer sentido ocidental tradicional), não é liberal (clássico), não é cristão, é ambientalista, pagão, professa direitos trabalhistas e tem fixação com etnia. Transponha isso para meados da década de 20 do século passado, o que há de direitista nisso num período em que já existiam os Partido Conservador, Churchill, o establishment americano etc? O que quer que seja o direitismo do nazismo e de caras como o da Nova Zelândia, é uma coisa bastante diferente do que chamamos de direitismo e conservadorismo no Ocidente.


d - "c" joga água no moinho da tese que o nazismo não seria nem de esquerda nem de direita, mas a tal "terceira via". Essa é uma análise para cientistas políticos e claramente um exercício feito posteriormente, pois não havia o conceito na época (até onde me consta). Discutir se o nazismo eventualmente seria uma ideologia de "terceira via" implica numa discussão HONESTA sobre assunto; à parte da atmosfera propagandística de se retratar qualquer opositor do comunismo/esquerdismo como nazista/fascista (o que clara e nitidamente não é o sentimento atual). Se podemos discutir se o nazismo é de terceira via, não há impedimento intelectual algum para discutir seus elementos de esquerda (apesar de na época, supostamente, ser "evidente" que o nazismo era de direita e/ou apoiado por direitistas).


e - Hannah Arendt em "As Origens do Totalitarismo" retrata nazismo e comunismo como ideologias irmãs (mesmo irmãos gêmeos podem tomar rumos completamente distintos) e Hitler e Stalin como admiradores um do outro. Hitler admiraria Stalin mais do que admirava Mussolini (outro com profundo passado no socialismo não-marxista).


f - o nazismo pode conter elementos "direitistas" como nacionalismo, hierarquização social, entusiasmo com a cultura clássica e preocupação com a deterioração cultural, mas seus MÉTODOS são claramente REVOLUCIONÁRIOS. Duguinistas, terceiras-via etc. costumam se intitular "revolucionários conservadores", pois sabem que não há outro meio de implante de suas ideias por meio de conservação do passado, mas apenas do rompimento quase que total com a ordem, de maneira idêntica a qualquer revolucionarismo de esquerda, mostrando o quanto estão imbuídos de gnosticismo (pois, supostamente, detém o conhecimento necessário para corrigir a ordem da realidade de maneira a criar a ordem social perfeita, seja ela projeção do passado no presente ou mirando o futuro).


That's all for today, folks.

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